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Assombração
João Marins de Medeiros, oficial de justiça
da comarca de Jardim do Seridó, atualmente curtindo
sua merecida aposentadoria, sempre foi uma figura hilariante,
com corpo franzino, de baixa estatura, careca precoce que
ele esconde sob um boné, respeitoso pela sua maneira
simples de ser, desperta a atenção dos colegas
e amigos para ouvir as historietas por ele contadas. Costumava
cumprir suas diligências a pé quando os destinatários
residiam na cidade, e montado no seu burro que atendia pelo
nome de “Passa Raiva” quando tratava-se de destinatário
residente na zona rural; para isso jamais dispensou um par
de esporas com grandes e barulhentas rosetas.
Cumpridor de seus deveres no exercício da função
de meirinho, sempre realizava suas diligências no mesmo
dia em que recebia os mandados. Ele conta que por volta das
15 horas de uma sexta-feira 13 (treze), o MM juiz lhe informou
que acabara de receber uma carta precatória oriunda
da comarca de Caicó, para dar cumprimento e intimar
uma pessoa no sítio Gurupá, município
de Ouro Branco, termo da comarca de Jardim do Seridó,
a fim de que este preste depoimento na condição
de testemunha em uma audiência marcada para a próxima
terça-feira, dia 17 (dezessete). Seu João Marins
indaga ao MM se ele já havia despachado o processo;
este acena positivamente, inclusive já tendo entregado
ao escrivão do 1º cartório, para emissão
do competente mandado. Seu João Marins dá uma
olhada no relógio que marca 15h10 e faz o seguinte
cálculo: “levo uns 20 minutos para colocar os
arreios no meu animal, uma hora de viagem na ida, e meia hora
de descanso para o burro se recuperar da fadiga do percurso
e eu cumprir o mandado, voltando comendo juá, chego
em casa antes do jantar”; e assim fez, pegou o mandado,
colocou na sua tradicional pasta 007 (zero, zero, sete), montou
no burro e seguiu tranquilamente, assoviando e apreciando
a natureza com o canto dos pássaros.
Ao chegar ao endereço indicado, seus planos começaram
ir por água abaixo, o destinatário não
se encontrava em casa, tinha ido rever sua boiada solta nos
campos do sitio Timbaúba e a natureza se encarregou
de mudar sua estratégia: de repente, o tempo fechou
com nuvens carregadas, relâmpagos riscando o céu,
e trovões ecoando por toda a região, e começou
a chover torrencialmente por mais de duas horas seguidas.
Quando a pessoa a ser intimada chegou em casa já passava
das 20:00h, não havendo mais chance do meirinho voltar
para casa, pois o rio Barra Nova se apresentava com uma valente
enxurrada. Traído pela natureza, seu João Marins
se viu obrigado a fazer o que menos gostava: dormir fora de
casa! Como não havia outra alternativa, aceitou todas
as condições oferecidas pelo dono da casa, e,
após uma noite mal dormida, às 4h00 da manhã
seu João já estava de pé. Foi até
as margens do rio, constatou já ser possível
atravessá-lo, e, colocando os arreios no burro, se
despediu do peão da fazenda que lhe fizera companhia
durante a noite e seguiu viagem. Quando a barra começou
a quebrar (alvorecer), os pássaros já estavam
fazendo a tradicional alvorada de tempos de chuva no sertão;
seu João Marins começou a ouvir uma voz soando
distante, mas seu eco era captado com perfeição
e o mesmo ouvia a seguinte expressão: “Ai João!
Ai João! Ai João!” – dava-se uma
pausa e voltava a se repetir o mesmo som. Nisso, João
Marins segurou as rédeas do burro, fazendo-o parar,
e refletiu: “segundo a sabedoria popular os animais
da espécie asinina conhecem quando existe algum perigo
que possa lhe causar danos e, como defesa, retornam ao seu
destino”.
Aconteceu que o burro não detectou nenhum perigo, e,
após João Marins soltar suas rédeas,
“Passa Raiva” seguiu seu destino. Porém,
quanto mais o animal andava, mais intensa tornava-se aquela
voz que repetia a mesma expressão: “Ai João!
Ai João! Ai João!”. Meio cabreiro, ele
respirou fundo e pensou: “era só o que me faltava!
Encontrar uma assombração”, mas seguiu
seu destino, guiado pela fé em Deus e confiando na
profecia do seu burro. É aí que se depara com
a seguinte cena: em cima de uma pedra, estava um Papagaio
com um espinho de xique-xique encravado no pé-esquerdo
e ao seu lado um João-de-barro tentando tira o maldito
espinho. Como não conseguia tirá-lo, devido
à lisura do espinho, o bico do João-de-barro
deslizava sempre que ele tentava puxar, causando dor ao papagaio.
Para ele, então, não restava outra alternativa
a não ser repetir, incansavelmente: “Ai João!
Ai João!Ai João!!”.
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